domingo, 30 de junho de 2013

O lúdico para questionar

Utilizado desde a Grécia antiga para a educação dos jovens, os jogos "param o tempo e são a fuga das regras e da moralidade da sociedade, de acordo com Heráclito e Nietzsche. Mas esse conceito tem se deturpado na modernidade

 
        
A relação entre o jogo e o discurso filosófico é mais próxima do que o formalismo intelectual enclausurado no gabinete do pensamento burocratizado poderia deduzir. Atividade que se configura como fundamental no processo de formação existencial do ser humano, o jogo representa a instauração simbólica de uma reapropriação criadora do tempo em uma atividade afirmadora da vida e do prazer próprio da ludicidade. Heráclito de Éfeso, ao filosofar sobre o caráter, diz: "Tempo (Aion) é criança jogando, brincando. Reinado de criança"1. O conceito de tempo categorizado como Aion significa a expressão intensiva do processo criador latente em todas as coisas da natureza, tal como uma grande brincadeira na qual as amarras cronológicas não encontram qualquer predominância. A temporalidade do jogo se configura assim como o instante mágico da criação, a ruptura com a ordem normativa de toda medida. Essa criança do devir que transforma tudo aquilo que existe conforme seu capricho representa a presença do espírito lúdico do contínuo mecanismo cósmico de modificação das formas de vida.
O fluxo do tempo atua de maneira inocente no decorrer de sua ação transformadora das coisas existentes na natureza, livre de qualquer imputação moral que determine a qualidade das suas ações, exigindo a correção das faltas cometidas contra a harmonia cosmológica. Associar o tempo intensivo da criatividade a uma criança que, em sua inocência, se encontra para além de bem e de mal, de certo e de errado, diviniza o caráter aleatório do processo de constituição cosmológica e estabelece uma interpretação da existência emancipada de toda culpabilidade moral. Com efeito, as inexoráveis transformações da natureza não decorrem da necessidade de expiação por um pretenso erro originário, pois a expressão da vida se encontra para além de qualquer esfera de valor coercitivo ou normativo que imponha um critério extrínseco de conduta ao ser humano.

UMA DAS características principais do jogo é a competitividade. Esse conceito foi bem elaborado pelo poeta grego Hesíodo, ao demonstrar sua importância, de modo que os homens desejem sempre a superação das forças e a manifestação da excelência de suas obras, por meio da Boa Éris. Ela conduz até o homem sem capacidade para o trabalho. Na mitologia grega, Éris é a deusa da discórdia.
Nietzsche, ao interpretar essa questão, a rma que "neste mundo, só o jogo do artista e da criança tem um vir à existência e um perecer, um construir e um destruir sem qualquer imputação moral em inocência eternamente igual. E, assim como brincam o artista e a criança, assim brinca também o fogo eternamente ativo, constrói e destrói com inocência - e esse jogo joga-o o Aion consigo mesmo. Transformando- -se em água e em terra, junta, como uma criança, montinhos de areia à beira-mar, constrói e derruba: de vez em quando, recomeça o jogo. Um instante de saciedade: depois, a necessidade apodera-se outra vez dele, tal como a necessidade força o artista a criar. Não é a perversidade, mas o impulso do jogo sempre despertando que chama outros mundos à vida. Às vezes, a criança lança fora o brinquedo: mas depressa recomeça a brincar com uma disposição inocente. Mas, logo que constrói, liga e junta as formas segundo uma lei e em conformidade com uma ordem intrínseca"².

Os jogos
e a educação
Na Grécia Antiga, aEducação teve uma forte ligação com os jogos e os esportes, principalmente porque era baseada na formação que buscava integração entre corpo e espírito. Os gregos davam ao exercício físico um papel de grande destaque nos vários setores da vida social. Os jogos, por sua vez, complementavam a aquisição de conhecimento. Nesse cenário, durante a celebração de festas, os jogos atléticos helênicos tiveram enorme importância.
A relevância dessa manifestação não se restringia, apenas, às práticas esportivas e à Educação Física.Os gregos mantinham, também, outros tipos de jogos, não incluídos nos festivais de atletismo, que serviam fundamentalmente para ocupar as horas de descanso e ócio, além de educar.
Entre eles se destacam alguns tradicionais, que ainda existem até os dias atuais, como pião, andar a cavalo, ioiô, jogos de azar com dados e jogos com bola. Platão, que tinha sido um excelente lutador, deu grande importância ao esporte na educação dos jovens. Ele defendia que a música e a ginástica eram as disciplinas educativas que deviam se combinar para alcançar a perfeição da alma.
Aristóteles também considerava a ginástica uma das matérias educativas. Contudo, a prova definitiva de que os jogos tiveram grande peso na educação do povo grego foi a criação das Olimpíadas.

 

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